Casos de violência extrema envolvendo adolescentes despertam indignação coletiva — e com razão.
No entanto, quando a reação social se limita ao choque, à punição imediata ou ao linchamento moral, corremos o risco de repetir exatamente a lógica que criticamos: a da ausência de responsabilidade adulta.
A violência na adolescência não surge do nada.
Ela é construída em contextos nos quais faltaram limites claros, presença consistente e responsabilização real.
O adolescente ainda está formando sua noção de consequência, empatia e pertencimento. Quando o adulto que cuida minimiza, silencia, relativiza ou protege excessivamente, a mensagem transmitida é perigosa:
“Não há consequências.”
Responsabilizar não é destruir.
Proteger não é acobertar.
Cuidar não é se omitir.
Quando o adulto falha em sustentar o “não”, em intervir precocemente e em assumir seu papel ético, a violência deixa de ser apenas um ato individual e passa a ser um sintoma coletivo.
A indignação social que emerge nesses casos também precisa ser analisada com cuidado. Ela não diz respeito apenas ao ato violento em si, mas à sensação de injustiça estrutural presente em nossa sociedade.
A forma como a responsabilização acontece — ou deixa de acontecer — ainda é profundamente atravessada pela condição social. Não reagimos da mesma forma quando os envolvidos pertencem a diferentes contextos socioeconômicos. Isso agrava o sentimento de impunidade, o descrédito na justiça e o desejo por punições imediatas.
Esse cenário cria um paradoxo perigoso:
a) Criticamos a violência, mas naturalizamos pequenas violências cotidianas;
b) Exigimos justiça, mas falhamos na prevenção;
c) Apontamos adolescentes como “problema”, mas terceirizamos o cuidado e a educação emocional.
É preciso sustentar uma posição ética clara: atos violentos exigem responsabilização proporcional e legal, sem espetacularização, sem vingança social e sem acobertamento.
Ao mesmo tempo, exigem que adultos — famílias, escolas, instituições e sociedade — se perguntem onde falharam antes que o limite fosse ultrapassado.
Sem adultos que sustentem presença, limite e consequência, não há prevenção possível.
Sem uma justiça que funcione de forma equânime, a indignação continuará transbordando em violência simbólica ou real.
Pensar esses casos com profundidade não é “passar pano”.
É assumir que a violência adolescente revela, antes de tudo, as falhas do mundo adulto em cuidar, conter e responsabilizar.
Nesse sentido, o caso do cachorro Orelha constitui um marco simbólico relevante.
A violência sofrida por um animal em condição de extrema vulnerabilidade não pode ser compreendida apenas como um evento isolado de crueldade, mas como o desfecho extremo de uma cadeia de omissões.
Quando a família, que poderia dar o exemplo, se posicionar e transformar o erro em aprendizado, escolhe acobertar a situação — seja por status, vergonha ou medo — perde-se uma oportunidade fundamental de formação ética.
Isso gera revolta social, frustração coletiva e a sensação de que a injustiça se perpetua.
Por justiça.
Por responsabilidade.
Por cuidado.
Por tantos “Orelhas” que existem por aí.
#justiçapororelha
#cpidororelha
