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Quando a criança sofre, mas também precisa aprender a falar sobre o que sente.

Acolher o sofrimento de uma criança não significa resolver todos os seus problemas ou permitir qualquer comportamento. Neste artigo, refletimos sobre como família e escola podem ajudar crianças a reconhecer e comunicar o que sentem, lidar com frustrações, pedir ajuda e desenvolver autonomia e responsabilidade emocional. O texto também aborda situações que exigem maior atenção dos adultos e a importância do trabalho conjunto quando necessário.

Quando a criança sofre, mas também precisa aprender a falar sobre o que sente.

“Ele tem tudo.”        
“Não tem motivo para estar assim.”
“É só uma fase.”
“Criança não tem preocupação de verdade.”

Frases como essas podem aparecer quando uma criança demonstra tristeza, irritação, isolamento ou mudanças de comportamento.

Muitas vezes, são ditas por adultos que desejam proteger.

Mas existe uma questão importante:

quando tentamos convencer uma criança de que ela não deveria estar sofrendo, podemos deixar de escutar aquilo que ela está tentando comunicar.

Por outro lado, existe também um segundo aspecto que não podemos ignorar:

acolher o sofrimento não significa retirar da criança a responsabilidade de aprender a lidar com aquilo que sente.

Educar também é ensinar que sentimentos precisam ser reconhecidos, comunicados e elaborados.


Criança também sofre — mas precisa aprender a comunicar

Na infância, o sofrimento nem sempre aparece acompanhado de uma fala clara como:

“Estou triste.”                                            

Pode aparecer como irritação, isolamento, choro, resistência, agressividade ou até mesmo recusa de determinadas situações.

Mas existe uma diferença importante entre compreender esse comportamento e simplesmente aceitá-lo.

Uma criança pode estar sofrendo e, ainda assim, precisar aprender que:

  • não pode agredir alguém porque está frustrada;
  • não pode ofender porque está com raiva;
  • não pode destruir objetos porque está triste;
  • precisa procurar um adulto quando não consegue resolver algo sozinha;
  • precisa aprender a colocar em palavras aquilo que está sentindo.

Acolher não significa permitir tudo.

Significa criar condições para que a criança desenvolva outras formas de responder ao que sente.


O desenvolvimento emocional também exige participação da criança

É comum pensarmos que cabe exclusivamente ao adulto ensinar a criança a lidar com suas emoções.

Mas esse processo é construído em conjunto.

O adulto pode perguntar:

“O que aconteceu?”

Mas, progressivamente, a criança precisa aprender a responder.

O adulto pode ajudar a nomear:

“Você parece estar frustrado.”

Mas a criança precisa, aos poucos, conseguir reconhecer:

“Estou frustrado porque...”

O adulto pode oferecer ajuda.

Mas a criança também precisa aprender a pedir ajuda.

Esse movimento é fundamental para a construção da autonomia.


Sentir não é escolher. Mas o que fazemos com aquilo que sentimos pode ser aprendido.

Uma criança não escolhe sentir raiva.

Não escolhe sentir medo.

Não escolhe ficar triste.

Não escolhe se decepcionar.

Mas pode aprender, com o tempo, que existem diferentes maneiras de responder a esses sentimentos.

Essa talvez seja uma das tarefas mais importantes da educação emocional.

Não ensinar a criança a não sentir.

Ensinar que sentir não autoriza qualquer comportamento.

Uma criança pode estar muito irritada e ainda assim precisar respeitar o outro.

Pode estar frustrada e ainda assim precisar aceitar um limite.

Pode estar triste e ainda assim precisar comunicar o que está acontecendo.

Pode errar e precisar reparar.


O risco de transformar todo sofrimento em justificativa

Existe uma diferença entre dizer:

“Eu entendo que você está sofrendo.”

e dizer:

“Como você está sofrendo, tudo está permitido.”

A segunda posição pode dificultar o desenvolvimento da responsabilidade.

Se toda atitude inadequada for explicada exclusivamente pelo sofrimento, a criança pode não encontrar espaço para refletir sobre sua própria participação nas situações.

Por isso, precisamos sustentar duas coisas ao mesmo tempo:

“Eu reconheço o que você está sentindo.”

e “Ainda precisamos conversar sobre o que você fez.”

Uma coisa não elimina a outra.


A criança também precisa aprender a pedir ajuda

Um dos aprendizados mais importantes é mostrar que pedir ajuda não significa fraqueza.

Quando algo estiver difícil, a criança precisa saber que pode dizer:

“Eu não estou conseguindo.”

“Isso está me deixando triste.”

“Não sei como resolver.”

“Preciso conversar.”

Esse repertório não nasce pronto.

É construído nas relações.

Quanto mais oportunidades a criança possui para falar sobre aquilo que vive, maior pode ser sua capacidade de transformar comportamentos em palavras.

E palavras possibilitam reflexão.


Quando o sofrimento aparece de maneira preocupante

Existem situações que exigem atenção especial dos adultos.

Mudanças persistentes de comportamento, isolamento intenso, perda de interesse, alterações importantes no sono ou alimentação, recusa escolar ou falas relacionadas à morte e ao desejo de desaparecer não devem ser simplesmente classificadas como “fase” ou “drama”.

Nesses casos, o papel da criança é comunicar aquilo que consegue.

O papel do adulto é escutar, proteger e buscar ajuda quando necessário.

A responsabilidade não pode ser colocada inteiramente sobre a criança.

Ela ainda está em desenvolvimento.



E qual é o papel da escola?

A escola participa desse processo diariamente.

É no cotidiano escolar que a criança aprende que pode:

  • discordar sem agredir;
  • frustrar-se sem abandonar uma atividade;
  • pedir ajuda;
  • reconhecer um erro;
  • ouvir uma crítica;
  • reparar uma atitude;
  • comunicar um incômodo;
  • respeitar o limite do outro.

Por isso, nem todo conflito precisa ser imediatamente resolvido pelo adulto.

Alguns conflitos precisam ser mediados para que a própria criança aprenda a participar da solução.

Fazer pela criança aquilo que ela já pode aprender a fazer também pode limitar sua autonomia.

E os pais?

Em casa, acontece algo semelhante.

Pais não precisam solucionar todos os problemas dos filhos.

Precisam ajudá-los a desenvolver recursos para enfrentá-los.

Isso pode significar perguntar:

“O que você acha que poderia fazer?”

em vez de apresentar imediatamente uma solução.

Pode significar:

“Você quer que eu te ajude ou quer tentar primeiro?”

Pode significar permitir que a criança experimente pequenas frustrações sem imediatamente retirar o obstáculo.

Proteger também é preparar.

O que acontece quando esse equilíbrio não existe?

Quando existe apenas cobrança, a criança pode aprender a esconder o sofrimento.

Quando existe apenas permissividade, pode ter dificuldade para desenvolver responsabilidade.

Quando existe controle excessivo, pode depender constantemente do adulto para resolver seus conflitos.

Quando existe ausência de diálogo, pode procurar respostas exclusivamente fora da família e da escola.

O desenvolvimento saudável exige algo mais complexo:

acolhimento + limite + responsabilidade + autonomia.


O que podemos fazer?

1. Escutar sem imediatamente resolver

Nem todo problema precisa de uma solução apresentada pelo adulto.

2. Ensinar a nomear o que sente

“Estou bravo”, “estou triste”, “estou frustrado”, “estou com medo” são ferramentas importantes de comunicação.

3. Separar sentimento de comportamento

Sentir raiva é possível.

Agressão precisa ser trabalhada.

4. Ensinar a pedir ajuda

A criança precisa saber que procurar um adulto é uma atitude de responsabilidade.

5. Permitir pequenas frustrações

Nem toda dificuldade precisa ser retirada do caminho.

Algumas precisam ser vividas com acompanhamento.

6. Ensinar reparação

Quando a criança erra, não basta pedir desculpas mecanicamente.

É importante compreender o que aconteceu e pensar sobre como reparar.

7. Observar quando o sofrimento ultrapassa aquilo que a criança consegue elaborar sozinha

Nessas situações, família, escola e profissionais especializados podem precisar trabalhar conjuntamente.


Reflexão final

Talvez educar emocionalmente uma criança seja sustentar uma posição aparentemente contraditória:

“Eu estou aqui para você.”

Mas também:

“Você precisa aprender a lidar com aquilo que sente.”

Não queremos crianças que escondam sua dor para parecerem fortes.

Mas também não queremos crianças que aprendam que toda dor elimina sua responsabilidade.

A infância precisa de adultos que acolham.

Mas também precisa de adultos que ensinem.

Que protejam.

Mas também permitam experimentar.

Que escutem.

Mas também façam perguntas.

Que ajudem.

Mas que, progressivamente, devolvam à criança a possibilidade de fazer por si mesma.

No Colégio Prígule, acreditamos que educar é justamente construir esse equilíbrio: acolher o sujeito sem retirar dele a possibilidade de se responsabilizar pela própria história.

Porque crescer não significa deixar de sentir.

Significa aprender, pouco a pouco, o que fazer com aquilo que sentimos.



Orientador Educacional

Bruno Moreira