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A importância da comunicação e da palavra assertiva no desenvolvimento educacional

A comunicação também faz parte do processo de formação. Neste artigo, refletimos sobre a importância de ensinar crianças e adolescentes a expressar opiniões, lidar com conflitos, discordar, ouvir e escolher suas palavras com responsabilidade. Entenda como escola e família podem contribuir para o desenvolvimento de uma comunicação mais assertiva, fortalecendo autonomia, respeito e convivência.

A importância da comunicação e da palavra assertiva no desenvolvimento educacional

Educar não é apenas ensinar conteúdos.

É também ensinar uma criança ou um adolescente a estar no mundo, relacionar-se, argumentar, discordar, ouvir e se posicionar.

E, nesse processo, existe uma ferramenta que utilizamos todos os dias, mas que nem sempre ensinamos de maneira intencional: a palavra.

A forma como uma criança aprende a falar com seus colegas, professores, familiares e demais pessoas não acontece espontaneamente. Ela é construída nas experiências que vivencia e, principalmente, nas referências que encontra nos adultos.

Por isso, quando falamos sobre comunicação no processo educacional, não estamos tratando apenas da maneira como professores e pais falam com os alunos.

Estamos falando também de como ensinamos os próprios alunos a se comunicar.


Comunicar-se também é uma habilidade que precisa ser aprendida

Saber falar não significa necessariamente saber se comunicar.

Uma criança pode possuir um vocabulário amplo e, ainda assim, ter dificuldade para expressar uma insatisfação sem agredir.

Um adolescente pode saber argumentar, mas não conseguir discordar sem desqualificar o outro.

Um estudante pode saber exatamente o que deseja dizer, mas não saber escolher as palavras necessárias para que sua mensagem seja compreendida.

É nesse ponto que a educação possui uma função fundamental.

A escola também lapida a comunicação do sujeito.

Ensinar uma criança a dizer:

“Eu não concordo com isso porque…”

é diferente de ensiná-la a dizer:

“Isso é ridículo.”

Ensinar um aluno a dizer:

“Não gostei do que você fez.”

é diferente de permitir que ele responda:

“Você é um idiota.”

A diferença não está apenas nas palavras.

Está na construção de um sujeito que aprende que a maneira como se posiciona também produz efeitos sobre o outro.


A comunicação assertiva não significa falar sempre de maneira agradável

Ser assertivo não significa concordar com tudo, evitar conflitos ou transformar toda conversa em uma negociação.

Uma comunicação assertiva permite:

·       expressar uma opinião;

·       discordar;

·       estabelecer limites;

·       fazer críticas;

·       defender uma posição;

·       reconhecer um erro;

·       pedir ajuda;

·       manifestar descontentamento.

Tudo isso pode acontecer sem humilhar, ameaçar ou desqualificar o outro.

A criança precisa aprender que pode dizer “não”.

Mas também precisa aprender como dizer “não”.

Pode discordar.

Mas precisa aprender como discordar.

Pode estar irritada.

Mas precisa aprender como comunicar a irritação sem transformar o outro em alvo.

Esse aprendizado faz parte da formação de um sujeito para a vida em sociedade.


O que a ciência nos mostra sobre a comunicação no processo educacional

Uma meta-análise publicada em 2024 na Educational Research Review analisou 16 estudos, reunindo 51 medidas de efeito sobre a relação entre a fala dos professores e o desempenho acadêmico.

Os resultados encontraram uma associação positiva entre a comunicação docente e o desempenho dos estudantes. Mais especificamente, a fala dialógica apresentou associação moderada com o desempenho acadêmico, enquanto a fala predominantemente monológica não apresentou associação significativa.

Entre as estratégias com resultados mais expressivos estavam convidar os estudantes a compartilhar suas ideias e utilizar perguntas que retomam e desenvolvem aquilo que o estudante acabou de dizer.

Isso nos oferece uma reflexão importante:

o aluno não aprende somente quando recebe uma resposta. Ele também aprende quando é convidado a construir uma resposta.

Perguntar, argumentar, explicar e ouvir fazem parte do próprio processo de aprendizagem.


A escola como espaço de lapidação da palavra

Se queremos formar estudantes capazes de participar de uma sociedade democrática, precisamos ensiná-los a utilizar a linguagem para além das respostas corretas das avaliações.

Precisamos ensiná-los a:

perguntar antes de acusar;

explicar antes de concluir;

discordar antes de atacar;

ouvir antes de responder;

argumentar antes de desqualificar.

Isso não acontece apenas em uma aula específica.

Acontece no cotidiano.

Acontece quando um professor pede que dois alunos expliquem seus pontos de vista.

Quando uma criança precisa resolver um conflito verbalmente.

Quando um adolescente é orientado a reformular uma fala inadequada.

Quando o adulto não aceita simplesmente:

“Foi porque ele começou.”

e pergunta:

“O que você fez depois que ele começou?”

A pergunta desloca o estudante da posição de vítima absoluta para a possibilidade de pensar sobre sua própria participação na situação.


Quando não ensinamos a escolher as palavras

A ausência desse processo de lapidação pode produzir dificuldades que ultrapassam os muros da escola.

O estudante pode crescer acreditando que:

·       falar alto significa ter razão;

·       ser agressivo significa ser forte;

·       discordar significa atacar;

·       pedir desculpas significa perder;

·       admitir um erro significa demonstrar fraqueza;

·       ironizar é uma forma legítima de argumentar.

E essas aprendizagens acompanham o sujeito.

Chegam às amizades.

Chegam à família.

Chegam aos relacionamentos.

Chegam, posteriormente, ao ambiente profissional.

Por isso, educar a comunicação é também preparar para a vida em sociedade.


Implicações e problemáticas

Quando a comunicação não é trabalhada como parte da formação, podem surgir:

·       conflitos que poderiam ser resolvidos pelo diálogo;

·       dificuldade de expressar sentimentos e necessidades;

·       respostas agressivas diante de contrariedades;

·       dificuldade para receber críticas;

·       pouca capacidade de argumentação;

·       resistência em reconhecer erros;

·       dependência de adultos para solucionar conflitos.

O problema não é que o estudante “não saiba se comportar”.

Em muitos casos, ele ainda não aprendeu outras formas de se comunicar diante daquele conflito.

E isso precisa ser ensinado.


Os prejuízos que acabam chegando às famílias

Quando a comunicação não é desenvolvida durante o processo educativo, os efeitos também aparecem em casa.

Pais podem se deparar com filhos que:

·       respondem de maneira agressiva;

·       não conseguem explicar o que aconteceu;

·       transformam qualquer discordância em discussão;

·       têm dificuldade para pedir desculpas;

·       interpretam qualquer limite como uma ofensa;

·       utilizam ironia ou silêncio como formas de enfrentamento.

Consequentemente, os adultos passam a intervir constantemente nos conflitos.

E aquilo que poderia ser uma oportunidade de desenvolvimento da autonomia acaba se transformando em dependência da mediação adulta.


Como podemos lapidar a comunicação dos estudantes?

Algumas práticas podem fazer parte da rotina escolar e familiar:

1. Ensinar a substituir acusações por explicações

Em vez de:

“Ele é chato.”

Estimular:

“Eu não gostei porque ele fez isso comigo.”


2. Ensinar a discordar

Não precisamos formar estudantes que concordam com tudo.

Precisamos formar estudantes capazes de dizer:

“Eu penso diferente porque…”

A discordância também é uma habilidade social.


3. Pedir que o estudante reformule

Quando uma fala é agressiva, não é necessário encerrar a conversa imediatamente.

Podemos dizer:

“Eu entendi o que você quer dizer. Agora tente me explicar novamente escolhendo outras palavras.”

Nesse momento, a correção deixa de ser apenas disciplinar.

Ela se transforma em aprendizagem.


4. Ensinar o efeito da palavra

Uma frase pode produzir aproximação ou afastamento.

Pode resolver um conflito ou ampliá-lo.

Pode expressar uma necessidade ou provocar uma agressão.

O estudante precisa compreender que comunicar-se é também responsabilizar-se pelo que coloca no mundo.


5. Criar espaços para argumentação

Debates, rodas de conversa, apresentações, projetos coletivos e situações de resolução de conflitos são oportunidades para ensinar:

·       escuta;

·       argumentação;

·       negociação;

·       respeito;

·       clareza;

·       responsabilidade.

A comunicação precisa ser praticada para ser desenvolvida.


Reflexão final

Talvez uma das perguntas mais importantes que uma escola possa fazer seja:

Que tipo de sujeito estamos ensinando nossos alunos a serem quando ensinamos a falar?

Queremos sujeitos que apenas saibam responder?

Ou sujeitos que saibam perguntar, argumentar, discordar, escutar e construir suas próprias palavras?

No Colégio Prígule, acreditamos que a educação também passa pela lapidação da comunicação.

Não queremos apenas que nossos alunos saibam o que dizer.

Queremos que aprendam como dizer, quando dizer, por que dizer e quais efeitos suas palavras podem produzir no outro.

Porque a palavra não é apenas uma ferramenta de comunicação.

Ela é uma ferramenta de construção do sujeito.

E ensinar alguém a escolher melhor suas palavras é também ensiná-lo a ocupar melhor o seu lugar no mundo.


Referências científicas

Tao, Y.; Chen, G. (2024). The relationship between teacher talk and students’ academic achievement: A meta-analysis. Educational Research Review, 45, 100638. DOI: 10.1016/j.edurev.2024.100638.

Emslander, V.; Holzberger, D.; Ofstad, S. B.; Fischbach, A.; Scherer, R. (2025). Teacher-student relationships and student outcomes: A systematic second-order meta-analytic review. Psychological Bulletin, 151(3), 365–397. DOI: 10.1037/bul0000461.

Jiang, Y.; Kaplan, B.; Ko-Wong, L. (2025/2026). Does Teacher Talk Matter Too? A Meta-Analysis of Partial Correlations Between Teachers’ Language Practices and Children’s Language Development from Preschool to Third Grade. Review of Educational Research, 96(4). A meta-análise reuniu 118 artigos, 104 estudos, 13.572 professores e 112.533 crianças, encontrando associação estatisticamente significativa entre a qualidade da linguagem dos professores e o desenvolvimento linguístico infantil.

Orientador Educacional
Bruno Moreira